{"id":4410,"date":"2018-04-18T18:07:18","date_gmt":"2018-04-18T18:07:18","guid":{"rendered":"http:\/\/descobrirportugal.pt\/?p=4410"},"modified":"2018-04-18T18:07:38","modified_gmt":"2018-04-18T18:07:38","slug":"o-interrogatorio-aos-tres-pastorinhos-na-integra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/descobrirportugal.pt\/o-interrogatorio-aos-tres-pastorinhos-na-integra\/","title":{"rendered":"O interrogat\u00f3rio aos tr\u00eas pastorinhos na \u00edntegra"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>O interrogat\u00f3rio que o padre Manuel Formig\u00e3o fez aos tr\u00eas pastorinhos. O seu objetivo era saber se os acontecimentos de F\u00e1tima eram obra de Deus.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Quando, h\u00e1 100 anos, tr\u00eas crian\u00e7as afirmaram ter visto Nossa Senhora em cima de uma azinheira na\u00a0Cova da Iria, ningu\u00e9m previa que aquele lugar desconhecido junto a F\u00e1tima, em Our\u00e9m, se tornaria num dos principais centros de culto mariano do mundo, visitado pelos Papas e por milhares de peregrinos todos anos. Na altura, as tr\u00eas crian\u00e7as \u2014 L\u00facia, Francisco e Jacinta \u2014 foram interrogadas dezenas de vezes sobre o que diziam ter visto, tanto pelas autoridades civis como pelas religiosas, que, inicialmente, duvidavam da veracidade dos relatos. O que realmente aconteceu em F\u00e1tima ainda hoje divide a sociedade e a pr\u00f3pria Igreja.<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">O interrogat\u00f3rio aos tr\u00eas pastorinhos na \u00edntegra<\/span><br \/>\nO reconhecimento das apari\u00e7\u00f5es como fen\u00f3meno divino pela Igreja, em 1930, resultou de um longo processo can\u00f3nico que come\u00e7ou precisamente com os extensos e repetidos interrogat\u00f3rios \u00e0s tr\u00eas crian\u00e7as. Fundamental nesse processo foi o padre Manuel Nunes Formig\u00e3o, um sacerdote nascido em Tomar e nomeado pelo ent\u00e3o bispo de Leiria para a Comiss\u00e3o Can\u00f3nica que estudou\u00a0os acontecimentos de F\u00e1tima.<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">O interrogat\u00f3rio aos tr\u00eas pastorinhos na \u00edntegra<\/span><br \/>\nA 27 de setembro de 1917 \u2014 j\u00e1 os pastorinhos tinham relatado cinco apari\u00e7\u00f5es e anunciavam um grande acontecimento para o dia 13 de outubro \u2013, o padre Formig\u00e3o deslocou-se \u00e0 aldeia de F\u00e1tima para falar mais uma vez com L\u00facia, Francisco e Jacinta. Queria saber mais detalhes sobre o que as tr\u00eas crian\u00e7as diziam ver, todos os dias 13 desde maio. Depois, escreveu um relat\u00f3rio em que transcreveu os di\u00e1logos que manteve com cada uma das crian\u00e7as, que lhe contaram todos os detalhes do que tinham visto.<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">O interrogat\u00f3rio aos tr\u00eas pastorinhos na \u00edntegra<\/span><br \/>\nNo fim, ficava ainda a pergunta: \u201cSer\u00e3o os acontecimentos de F\u00e1tima obra de Deus? \u00c9 cedo demais para responder com seguran\u00e7a a esta pergunta\u201d.<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">O interrogat\u00f3rio aos tr\u00eas pastorinhos na \u00edntegra<\/span><br \/>\nReproduz-se, na \u00edntegra, o relat\u00f3rio do padre Manuel Formig\u00e3o, atualmente parte do arquivo das\u00a0Irm\u00e3s Reparadoras de Nossa Senhora de F\u00e1tima, uma congrega\u00e7\u00e3o religiosa fundada pelo pr\u00f3prio sacerdote na d\u00e9cada de 40. O texto foi tamb\u00e9m\u00a0inclu\u00eddo\u00a0na Documenta\u00e7\u00e3o Cr\u00edtica de F\u00e1tima, uma compila\u00e7\u00e3o de toda a documenta\u00e7\u00e3o relativa aos acontecimentos de F\u00e1tima editada pelo Santu\u00e1rio. Leia-o a seguir.<\/p>\n<figure id=\"attachment_10891\" aria-describedby=\"caption-attachment-10891\" style=\"width: 1280px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-10891 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ncultura.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/O-padre-Manuel-Nunes-Formig\u00e3o-interrogou-v\u00e1rias-vezes-os-tr\u00eas-pastorinhos.jpg?resize=640%2C360\" alt=\"O interrogat\u00f3rio aos tr\u00eas pastorinhos na \u00edntegra\" width=\"640\" height=\"360\" data-recalc-dims=\"1\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-10891\" class=\"wp-caption-text\">O padre Manuel Nunes Formig\u00e3o interrogou v\u00e1rias vezes os tr\u00eas pastorinhos &#8211; O interrogat\u00f3rio aos tr\u00eas pastorinhos na \u00edntegra<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u201cNo intuito de completar as impress\u00f5es colhidas no dia 13 do corrente m\u00eas de Setembro<\/strong>\u00a0e habilitar-me com os elementos indispens\u00e1veis para fundamentar um ju\u00edzo, tanto quanto poss\u00edvel, acertado acerca dos acontecimentos que nos \u00faltimos cinco meses se t\u00eam desenrolado a tr\u00eas quil\u00f3metros ao sul da aldeia de F\u00e1tima, no local denominado Cova da Iria, fui pela segunda vez na quinta-feira \u00faltima, 27, \u00e0quela pitoresca aldeia, graciosamente alcandorada num dos contrafortes da majestosa serra de Aire. Eram tr\u00eas horas da tarde quando me apeei do trem que de Torres Novas me conduzira por Vila Nova de Our\u00e9m \u00e0 humilde povoa\u00e7\u00e3o, cujo nome \u00e9 hoje pronunciado como uma esperan\u00e7a fagueira de b\u00ean\u00e7\u00e3os e gra\u00e7as celestes por dezenas de milhares de l\u00e1bios, de um extremo ao outro de Portugal. O rev.do P\u00e1roco a quem logo procurei, n\u00e3o estava em casa: tinha sa\u00eddo para fora da freguesia e s\u00f3 \u00e0 noite devia voltar. Pesaroso por n\u00e3o poder trocar algumas palavras com ele sobre o assunto que ali me levava,\u00a0<strong>resolvi ir a casa das crian\u00e7as que se dizem favorecidas com apari\u00e7\u00f5es da Virgem Sant\u00edssima e ouvir da boca delas a narra\u00e7\u00e3o\u00a0<\/strong>pormenorizada dos estranhos sucessos cuja not\u00edcia tem atra\u00eddo dia a dia \u00e0 F\u00e1tima um sem n\u00famero de pessoas de todas as classes e condi\u00e7\u00f5es sociais.<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">O interrogat\u00f3rio aos tr\u00eas pastorinhos na \u00edntegra<\/span><br \/>\n\u00c0 dist\u00e2ncia de dois quil\u00f3metros da igreja paroquial e do presbit\u00e9rio, num insignificante lugarejo chamado Aljustrel, pertencente \u00e0 freguesia, ficam situadas perto uma da outra, as modestas habita\u00e7\u00f5es das fam\u00edlias dos videntes. As duas crian\u00e7as mais novas estavam ausentes.<\/p>\n<p>Dirigi-me a casa da mais velha, onde a m\u00e3e me convidou a entrar e sentar-me, convite a que acedi. A uma pergunta minha sobre o paradeiro da filha que eu procurava, respondeu-me que ela andava a vindimar numa pequena propriedade que lhe pertencia e que ficava dois quil\u00f3metros distante.<\/p>\n<blockquote class=\"td_pull_quote td_pull_center\"><p><span style=\"color: #2b499e;\">Pesaroso por n\u00e3o poder trocar algumas palavras com ele [o p\u00e1roco de F\u00e1tima] sobre o assunto que ali me levava, resolvi ir a casa das crian\u00e7as que se dizem favorecidas com apari\u00e7\u00f5es da Virgem Sant\u00edssima e ouvir da boca delas a narra\u00e7\u00e3o pormenorizada dos estranhos sucessos cuja not\u00edcia tem atra\u00eddo dia a dia \u00e0 F\u00e1tima um sem n\u00famero de pessoas de todas as classes e condi\u00e7\u00f5es\u00a0sociais<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Padre Manuel Nunes Formig\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Algu\u00e9m se prestou logo a ir cham\u00e1-la de ordem da m\u00e3e.\u00a0<strong>Entretanto, as duas crian\u00e7as mais novas, que tinham regressado do campo, sabendo pelos vizinhos que eu lhes desejava falar, vieram ter comigo.<\/strong>\u00a0Eram dois irm\u00e3os, um menino e uma menina.<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">O interrogat\u00f3rio aos tr\u00eas pastorinhos na \u00edntegra<\/span><br \/>\nChegou primeiro a menina. Chama-se Jacinta de Jesus, tem sete anos de idade e \u00e9 filha de Manuel Pedro Marto e de Ol\u00edmpia de Jesus. Bastante alta para a sua idade, um pouco delgada sem se poder dizer magra, de rosto bem proporcionado, tez morena, modestamente vestida, descendo-lhe a saia at\u00e9 \u00e0 altura dos artelhos, o<strong>\u00a0seu aspeto \u00e9 o de uma crian\u00e7a saud\u00e1vel, acusando perfeita normalidade no seu todo f\u00edsico e moral<\/strong>. Surpreendida com a presen\u00e7a de pessoas estranhas, que me tinham acompanhado e que n\u00e3o esperava encontrar, a princ\u00edpio mostra um grande embara\u00e7o, respondendo, por monoss\u00edlabos, e num tom de voz quase impercet\u00edvel, \u00e0s perguntas que eu lhe dirijo. Momentos depois aparece o irm\u00e3o, rapaz de nove anos de idade, que entra com um certo desembara\u00e7o no quarto, onde est\u00e1vamos, conservando o barrete na cabe\u00e7a, decerto por n\u00e3o se lembrar de que o devia tirar. Um sinal que a irm\u00e3 lhe fez para se descobrir n\u00e3o foi percebido por ele. Convidei-o a sentar-se numa cadeira ao meu lado, obedecendo imediatamente sem nenhuma relut\u00e2ncia.\u00a0<strong>Principiei sem demora a interrog\u00e1-lo sobre o que tinha visto e ouvido desde maio \u00faltimo<\/strong>\u00a0na Cova da Iria no dia 13 de cada m\u00eas durante o tempo da apari\u00e7\u00e3o. Estabeleceu-se entre mim e ele o curto di\u00e1logo que segue.<\/p>\n<figure id=\"attachment_10892\" aria-describedby=\"caption-attachment-10892\" style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-10892 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ncultura.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/O-relat\u00f3rio-original-do-padre-Manuel-Nunes-Formig\u00e3o-e1511631508619.jpg?resize=640%2C814\" alt=\"O interrogat\u00f3rio aos tr\u00eas pastorinhos na \u00edntegra\" width=\"640\" height=\"814\" data-recalc-dims=\"1\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-10892\" class=\"wp-caption-text\">O relat\u00f3rio original do padre Manuel Nunes Formig\u00e3o &#8211; O interrogat\u00f3rio aos tr\u00eas pastorinhos na \u00edntegra<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u2013 Que \u00e9 que tens visto na Cova da Iria nos \u00faltimos meses?<br \/>\n\u2013 Tenho visto Nossa Senhora.<br \/>\n\u2013 Onde aparece ela?<br \/>\n\u2013 Em cima duma carrasqueira.<br \/>\n\u2013 Aparece de repente ou tu v\u00ea-la vir de alguma parte?<br \/>\n\u2013 Vejo-a vir do lado onde nasce o sol e colocar-se sobre a carrasqueira.<br \/>\n\u2013 Vem devagar ou depressa?<br \/>\n\u2013 Vem sempre depressa.<br \/>\n\u2013 Ouves o que ela diz \u00e0 L\u00facia?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o ou\u00e7o.<br \/>\n\u2013 Falaste alguma vez com a Senhora? Ela j\u00e1 te dirigiu a palavra?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o, nunca lhe perguntei nada; fala s\u00f3 com a L\u00facia.<br \/>\n\u2013 Para quem olha ela, tamb\u00e9m para ti e para a Jacinta, ou s\u00f3 para a L\u00facia?<br \/>\n\u2013 Olha para todos tr\u00eas; mas olha durante mais tempo para a L\u00facia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_10893\" aria-describedby=\"caption-attachment-10893\" style=\"width: 1280px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-10893 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ncultura.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/Francisco-Marto-um-dos-tr\u00eas-pastorinhos-de-F\u00e1tima.jpg?resize=640%2C360\" alt=\"O interrogat\u00f3rio aos tr\u00eas pastorinhos na \u00edntegra\" width=\"640\" height=\"360\" data-recalc-dims=\"1\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-10893\" class=\"wp-caption-text\">Francisco Marto, um dos tr\u00eas pastorinhos de F\u00e1tima &#8211; O interrogat\u00f3rio aos tr\u00eas pastorinhos na \u00edntegra<\/figcaption><\/figure>\n<p>Jacinta, que andava a brincar na rua com outras crian\u00e7as, fi-la sentar num banquinho ao p\u00e9 de mim e submeti-a tamb\u00e9m a um interrogat\u00f3rio, conseguindo obter dela respostas completas e minuciosas, como as do irm\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Tens visto Nossa Senhora no dia 13 de cada m\u00eas desde maio para c\u00e1?<br \/>\n\u2013 Tenho visto.<br \/>\n\u2013 Donde \u00e9 que ela vem?<br \/>\n\u2013 Vem do C\u00e9u, do lado do sol.<br \/>\n\u2013 Como est\u00e1 vestida?<br \/>\n\u2013 Tem um vestido branco, enfeitado a ouro, e na cabe\u00e7a tem um manto, tamb\u00e9m branco. Em volta da cintura h\u00e1 uma fita doirada que desce at\u00e9 \u00e0 orla do vestido.<\/p>\n<blockquote class=\"td_pull_quote td_pull_center\"><p><span style=\"color: #2b499e;\">\u2013 Usa botas ou sapatos?<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #2b499e;\">\u2013 N\u00e3o usa botas nem sapatos.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #2b499e;\">\u2013 Ent\u00e3o tem s\u00f3 meias?<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #2b499e;\">\u2013 Parece que tem meias, mas talvez os p\u00e9s sejam t\u00e3o brancos que pare\u00e7am trazer meias\u00a0cal\u00e7adas.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Jacinta Marto, em resposta ao padre Formig\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>\u2013 Usa botas ou sapatos?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o usa botas nem sapatos.<br \/>\n\u2013 Ent\u00e3o tem s\u00f3 meias?<br \/>\n\u2013 Parece que tem meias, mas talvez os p\u00e9s sejam t\u00e3o brancos que pare\u00e7am trazer meias cal\u00e7adas.<br \/>\n\u2013 De que cor s\u00e3o os cabelos?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o se lhe veem os cabelos, que est\u00e3o cobertos com o manto.<br \/>\n\u2013 Traz brincos nas orelhas?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o sei, porque n\u00e3o se lhe veem tamb\u00e9m as orelhas.<br \/>\n\u2013 Qual \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os?<br \/>\n\u2013 As m\u00e3os est\u00e3o postas sobre o peito, com os dedos voltados para cima.<br \/>\n\u2013 As contas est\u00e3o na m\u00e3o direita ou na m\u00e3o esquerda?<br \/>\n\u2013 \u2026\u2026..<\/p>\n<figure id=\"attachment_10894\" aria-describedby=\"caption-attachment-10894\" style=\"width: 1280px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-10894 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ncultura.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/Jacinta-a-mais-nova-das-tr\u00eas-crian\u00e7as.jpg?resize=640%2C360\" alt=\"O interrogat\u00f3rio aos tr\u00eas pastorinhos na \u00edntegra\" width=\"640\" height=\"360\" data-recalc-dims=\"1\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-10894\" class=\"wp-caption-text\">Jacinta, a mais nova das tr\u00eas crian\u00e7as &#8211; O interrogat\u00f3rio aos tr\u00eas pastorinhos na \u00edntegra<\/figcaption><\/figure>\n<p>A esta pergunta a crian\u00e7a responde primeiro que estavam na m\u00e3o direita, mas em seguida, devido a insist\u00eancia da minha parte, mostra-se perplexa e confusa, n\u00e3o sabendo precisar bem qual das suas m\u00e3os correspondia \u00e0 m\u00e3o com que a Senhora segurava o Ros\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2013 O que \u00e9 que a Senhora recomendou \u00e0 L\u00facia com mais empenho?<br \/>\n\u2013 Mandou que rez\u00e1ssemos o ter\u00e7o todos os dias.<br \/>\n\u2013 E tu reza-lo?<br \/>\n\u2013 Rezo-o todos os dias com o Francisco e a L\u00facia.<\/p>\n<p>Meia hora depois de terminado o interrogat\u00f3rio de Jacinta de Jesus, aparece L\u00facia de Jesus. Vinha, como disse de uma pequena propriedade de sua fam\u00edlia, situada a dois quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia, onde tinha estado a vindimar. Mais alta e mais nutrida que as outras duas crian\u00e7as, de tez mais clara, robusta e saud\u00e1vel,\u00a0<strong>apresenta-se diante de mim com um desembara\u00e7o que contrasta singularmente com o acanhamento e a timidez excessiva da Jacinta<\/strong>. Singelamente vestida como esta, a sua atitude n\u00e3o denota e o seu rosto n\u00e3o traduz nenhum sentimento de vaidade nem de confus\u00e3o.<\/p>\n<p>Sentando-se, a um aceno meu, numa cadeira, ao meu lado, presta-se da melhor vontade a ser interrogada sobre os acontecimentos de que ela \u00e9 a principal protagonista, sem embargo de se sentir visivelmente fatigada e abatida, merc\u00ea das visitas incessantes que recebe e dos inqu\u00e9ritos repetidos e prolongados a que \u00e9 submetida.<\/p>\n<p>Filha de Ant\u00f3nio dos Santos, de 50 anos de idade, e de Maria Rosa, de 48 anos, tem um irm\u00e3o e quatro irm\u00e3s, todos mais velhos do que ela: Maria, de 26 anos, j\u00e1 casada, Teresa, de 24, Manuel, de 22, Gl\u00f3ria, de 20, e Carolina, de 15. Completou dez anos de idade em 22 de mar\u00e7o do corrente ano.<\/p>\n<p>Tinha oito anos quando fez a sua primeira comunh\u00e3o. A m\u00e3e, tipo da mulher crist\u00e3, e da boa dona de casa, entregue \u00e0s lides dom\u00e9sticas, procurou sempre inspirar aos filhos o santo temor de Deus e lev\u00e1-los ao cumprimento de todos os seus deveres morais e religiosos. Altamente preocupada com os sucessos que atraem a todo o momento as aten\u00e7\u00f5es de milhares de pessoas para a sua pobre habita\u00e7\u00e3o, at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo ignorada do mundo, nota-se desde logo que\u00a0<strong>o seu esp\u00edrito hesita, numa ansiedade inquieta, entre a esperan\u00e7a de que sua filha seja realmente privilegiada com a apari\u00e7\u00e3o da Virgem e o receio de que ela seja v\u00edtima de uma alucina\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0que lhe traga desgostos e cubra de rid\u00edculo toda a sua fam\u00edlia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_10895\" aria-describedby=\"caption-attachment-10895\" style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-10895 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ncultura.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/L\u00facia-de-dez-anos-prima-de-Francisco-e-Jacinta.jpg?resize=640%2C360\" alt=\"O interrogat\u00f3rio aos tr\u00eas pastorinhos na \u00edntegra\" width=\"640\" height=\"360\" data-recalc-dims=\"1\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-10895\" class=\"wp-caption-text\">L\u00facia, de dez anos, prima de Francisco e Jacinta &#8211; O interrogat\u00f3rio aos tr\u00eas pastorinhos na \u00edntegra<\/figcaption><\/figure>\n<p>A uma pergunta minha acerca da piedade da sua L\u00facia, responde que n\u00e3o lhe nota nada de extraordin\u00e1rio neste particular, vendo-a rezar da mesma forma e com o mesmo fervor que antes das apari\u00e7\u00f5es, exatamente como fazem as suas irm\u00e3s.<\/p>\n<p>Dou princ\u00edpio ao interrogat\u00f3rio da vidente.<br \/>\n\u2013 \u00c9 verdade que Nossa Senhora te tem aparecido no local chamado Cova da Iria?<br \/>\n\u2013 \u00c9 verdade.<br \/>\n\u2013 Quantas vezes te apareceu j\u00e1?<br \/>\n\u2013 Cinco vezes, sendo uma cada m\u00eas.<br \/>\n\u2013 Em que dia do m\u00eas?<br \/>\n\u2013 Sempre no dia treze, exceto no m\u00eas de agosto, em que fui presa e levada para a vila (Vila Nova de Our\u00e9m) pelo sr. administrador. Nesse m\u00eas vi-a s\u00f3 alguns dias depois, a dezanove, no s\u00edtio dos Valinhos.<br \/>\n\u2013 Diz-se que a Senhora te apareceu tamb\u00e9m o ano passado. Que h\u00e1 de verdade a este respeito?<br \/>\n\u2013 O ano passado nunca me apareceu (nem antes de maio deste ano); nem eu disse isso a pessoa alguma, porque n\u00e3o era exato.<br \/>\n\u2013 Donde \u00e9 que ela vem? Das bandas do nascente?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o sei; n\u00e3o a vejo vir de parte alguma; aparece sobre a carrasqueira, e quando se retira \u00e9 que toma a dire\u00e7\u00e3o donde nasce o sol.<br \/>\n\u2013 Quanto tempo se demora? Muito ou pouco?<br \/>\n\u2013 Pouco tempo.<br \/>\n\u2013 O suficiente para se recitar um Padre Nosso e uma Av\u00e9 Maria, ou mais?<br \/>\n\u2013 Mais, bastante mais, mas nem sempre o mesmo tempo (talvez n\u00e3o chegasse para rezar o ter\u00e7o).<br \/>\n\u2013 Da primeira vez que a viste n\u00e3o ficaste assustada?<br \/>\n\u2013 Fiquei, e tanto assim que quis fugir, com a Jacinta e o Francisco, mas Ela disse-nos que n\u00e3o tiv\u00e9ssemos medo, porque n\u00e3o nos faria mal. Disse: \u201cN\u00e3o tenham medo que eu n\u00e3o vos fa\u00e7o mal.\u201d<br \/>\n\u2013 Como \u00e9 que est\u00e1 vestida?<br \/>\n\u2013 Tem um vestido branco, que desce at\u00e9 um pouco abaixo do meio da perna, e cobre-lhe a cabe\u00e7a um manto, da mesma cor, e do mesmo comprimento que o vestido.<br \/>\n\u2013 O vestido n\u00e3o tem enfeites?<br \/>\n\u2013 Veem-se nele, na parte anterior, dois cord\u00f5es dourados, que descem do pesco\u00e7o e se re\u00fanem por uma borla, tamb\u00e9m dourada, \u00e0 altura do meio do corpo.<br \/>\n\u2013 Tem algum cinto ou alguma fita?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o tem.<br \/>\n\u2013 Usa brincos nas orelhas?<br \/>\n\u2013 Usa umas argolas pequenas e de cor amarela.<br \/>\n\u2013 Qual das m\u00e3os segura as contas?<br \/>\n\u2013 A m\u00e3o direita.<\/p>\n<blockquote class=\"td_pull_quote td_pull_center\"><p><span style=\"color: #2b499e;\">Perguntei de onde era, e ela respondeu-me que era do\u00a0C\u00e9u<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>L\u00facia de Jesus<\/em><\/p>\n<p>\u2013 Eram um ter\u00e7o ou um ros\u00e1rio?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o reparei bem.<br \/>\n\u2013 Terminavam por uma cruz?<br \/>\n\u2013 Terminavam por uma cruz branca, sendo as contas tamb\u00e9m brancas. A cadeia era tamb\u00e9m branca.<br \/>\n\u2013 Perguntaste-lhe alguma vez quem era?<br \/>\n\u2013 Perguntei, mas declarou que s\u00f3 o diria a 13 de outubro.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o lhe perguntaste de onde vinha?<br \/>\n\u2013 Perguntei de onde era, e ela respondeu-me que era do C\u00e9u.<br \/>\n\u2013 E quando foi que lhe fizeste essa pergunta?<br \/>\n\u2013 Da segunda vez, a treze de junho.<br \/>\n\u2013 Sorriu-se alguma vez ou mostrou-se triste?<br \/>\n\u2013 Nunca se sorriu nem se mostrou triste, mas sempre s\u00e9ria.<br \/>\n\u2013 Recomendou-te, e aos teus primos, que rezassem algumas ora\u00e7\u00f5es?<br \/>\n\u2013 Recomendou-nos que rez\u00e1ssemos o ter\u00e7o em honra de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio, a fim de se alcan\u00e7ar a paz para o mundo.<br \/>\n\u2013 Mostrou desejos de que no dia treze de cada m\u00eas estivessem presentes muitas pessoas na Cova da Iria?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o disse nada a esse respeito.<br \/>\n\u2013 \u00c9 certo que te disse um segredo, proibindo que o revelasses a quem quer que fosse?<br \/>\n\u2013 \u00c9 certo.<br \/>\n\u2013 Diz respeito s\u00f3 a ti ou tamb\u00e9m aos teus companheiros?<br \/>\n\u2013 A todos tr\u00eas.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o o podes manifestar ao menos ao teu confessor?<\/p>\n<p>(A esta pergunta guardou sil\u00eancio, parecendo um tanto enleada e julguei n\u00e3o dever insistir, repetindo a pergunta).<\/p>\n<p>\u2013 Consta que, para te veres livre das importuna\u00e7\u00f5es do sr. administrador, no dia em que foste presa, lhe contaste, como se fosse o segredo uma coisa que o n\u00e3o era, enganando-o assim e gabando-te depois de lhe teres feito essa partida: \u00e9 verdade?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o \u00e9; o sr. administrador quis realmente que eu lhe revelasse o segredo, mas como eu n\u00e3o o podia dizer a ningu\u00e9m, n\u00e3o lhe disse, apesar de ter insistido muito comigo para esse fim. O que fiz foi contar tudo o que a Senhora me disse, exceto o segredo, e talvez por esse motivo o sr. administrador ficasse julgando que eu lhe tinha revelado tamb\u00e9m o segredo. N\u00e3o o quis enganar.<br \/>\n\u2013 A Senhora mandou que aprendesses a ler?<br \/>\n\u2013 Mandou, sim, da segunda vez que apareceu.<br \/>\n\u2013 Mas se a Senhora disse que te levaria para o C\u00e9u no m\u00eas de outubro pr\u00f3ximo, para que te serviria aprenderes a ler?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o \u00e9 verdade isso: a Senhora nunca disse que me levaria para o C\u00e9u em outubro, e eu nunca afirmei que ela me tivesse dito tal coisa.<\/p>\n<blockquote class=\"td_pull_quote td_pull_center\"><p><span style=\"color: #2b499e;\">N\u00e3o \u00e9 veros\u00edmil que tr\u00eas crian\u00e7as de t\u00e3o tenra idade, uma delas apenas com sete anos, rudes e ignorantes, mintam e persistam na mentira durante tantos meses, posto que sejam t\u00e3o obsediadas com perguntas e interrogat\u00f3rios de toda a ordem e amea\u00e7adas pelos representantes da autoridade eclesi\u00e1stica e da autoridade civil e por tantas pessoas a quem elas devem respeito e\u00a0considera\u00e7\u00e3o<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Padre Manuel Nunes Formig\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>\u2013 O que declarou a Senhora que se devia fazer ao dinheiro que o povo deposita na Cova da Iria ao p\u00e9 da carrasqueira?<br \/>\n\u2013 Disse que o dev\u00edamos colocar em dois andores, levando eu, a Jacinta e mais duas meninas um deles, e o Francisco, com mais tr\u00eas rapazes, o outro, para a igreja da freguesia. Parte desse dinheiro seria destinado ao culto e festa da Senhora do Ros\u00e1rio e a outra parte para ajuda de uma capela nova.<br \/>\n\u2013 Onde quer ela que seja edificada a capela? Na Cova da Iria?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o sei: ela n\u00e3o o disse.<br \/>\n\u2013 Est\u00e1s muito contente por Nossa Senhora te ter aparecido?<br \/>\n\u2013 Estou.<br \/>\n\u2013 No dia treze de outubro Nossa Senhora vir\u00e1 s\u00f3?<br \/>\n\u2013 Vem tamb\u00e9m S. Jos\u00e9 com o menino, e ser\u00e1 concedida a paz ao mundo.<br \/>\n\u2013 E fez mais alguma revela\u00e7\u00e3o?<br \/>\n\u2013 Declarou que no dia 13 far\u00e1 com que todo o povo acredite que ela realmente aparece.<br \/>\n\u2013 Por que raz\u00e3o n\u00e3o raro baixas os olhos deixando de fitar a Senhora?<br \/>\n\u2013 \u00c9 que ela \u00e0s vezes cega.<br \/>\n\u2013 Ensinou-te alguma ora\u00e7\u00e3o?<br \/>\n\u2013 Ensinou; e quer que a recitemos depois de cada mist\u00e9rio do ros\u00e1rio.<br \/>\n\u2013 Sabes de cor essa ora\u00e7\u00e3o?<br \/>\n\u2013 Sei.<br \/>\n\u2013 Diz l\u00e1\u2026<br \/>\n\u2013 \u00d3 meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o C\u00e9u, principalmente aquelas que mais dele precisarem.<\/p>\n<p>Das respostas das crian\u00e7as e mais ainda da sua atitude e modo de proceder em todas as circunst\u00e2ncias em que se t\u00eam encontrado,\u00a0<strong>resulta, com uma clareza, que parece excluir toda a d\u00favida, a sua perfeita e absoluta sinceridade.<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_10896\" aria-describedby=\"caption-attachment-10896\" style=\"width: 1280px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-10896 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ncultura.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/Jacinta-L\u00facia-e-Francisco-os-tr\u00eas-pastorinhos-de-F\u00e1tima.jpg?resize=640%2C360\" alt=\"O interrogat\u00f3rio aos tr\u00eas pastorinhos na \u00edntegra\" width=\"640\" height=\"360\" data-recalc-dims=\"1\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-10896\" class=\"wp-caption-text\">Jacinta, L\u00facia e Francisco, os tr\u00eas pastorinhos de F\u00e1tima &#8211; O interrogat\u00f3rio aos tr\u00eas pastorinhos na \u00edntegra<\/figcaption><\/figure>\n<p>N\u00e3o \u00e9 veros\u00edmil que tr\u00eas crian\u00e7as de t\u00e3o tenra idade, uma delas apenas com sete anos, rudes e ignorantes, mintam e persistam na mentira durante tantos meses, posto que sejam t\u00e3o obsediadas com perguntas e interrogat\u00f3rios de toda a ordem e amea\u00e7adas pelos representantes da autoridade eclesi\u00e1stica e da autoridade civil e por tantas pessoas a quem elas devem respeito e considera\u00e7\u00e3o.\u00a0<strong>Nenhuma considera\u00e7\u00e3o, nenhum temor \u00e9 capaz de demov\u00ea-las de afirmar que veem Nossa Senhora. Nem a pris\u00e3o a que as sujeitam<\/strong>, depois de as arrancar violentamente ao seio da fam\u00edlia e de as levarem para longe da terra, em que nasceram e t\u00eam vivido, as intimida\u00e7\u00f5es exercidas por elementos do povo, que chegam ao extremo de amea\u00e7\u00e1-las com a morte, se um dia forem depreendidas em mentira flagrante. A naturalidade e franqueza com que se expressam, a simplicidade e candura que manifestam, a indiferen\u00e7a e desinteresse que mostram quanto ao facto de se lhes prestar ou n\u00e3o cr\u00e9dito, a timidez extrema da Jacinta, as pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es aparentes, facilmente explic\u00e1veis, em que caiem e que excluem em absoluto qualquer combina\u00e7\u00e3o entre as crian\u00e7as, s\u00e3o tudo ind\u00edcios de que as crian\u00e7as possuem, no mais alto grau, um dos requisitos indispens\u00e1veis numa testemunha para ser fidedigna: a veracidade.<\/p>\n<p><strong>Mas ser\u00e3o as crian\u00e7as v\u00edtimas de uma alucina\u00e7\u00e3o? Estar\u00e3o iludidas, julgando ouvir, e n\u00e3o ouvindo, julgando ver, e n\u00e3o vendo? Verificar-se-\u00e1 no caso sujeito a hip\u00f3tese de autosugest\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Mas como, se nada autoriza semelhante suposi\u00e7\u00e3o, de todo o ponto gratuita? N\u00e3o se trata de uma s\u00f3 testemunha, s\u00e3o tr\u00eas.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de adultos, mais sujeitos a alucina\u00e7\u00f5es, mas de crian\u00e7as. E que crian\u00e7as! Crian\u00e7as de tenra idade, dotadas de perfeita sa\u00fade, e que n\u00e3o manifestam o mais pequeno sintoma de histerismo, segundo a declara\u00e7\u00e3o de um m\u00e9dico consciencioso que as examinou cuidadosamente.<\/p>\n<p><strong>Dar-se-\u00e1 o caso, n\u00e3o raro sucedido, de uma interven\u00e7\u00e3o diab\u00f3lica?<\/strong><\/p>\n<p>O anjo das trevas transforma-se algumas vezes em anjo de luz, para enganar os crentes. Verificar-se-\u00e1 isso agora? A Jacinta afirma que o vestido da Senhora chega apenas aos joelhos. A L\u00facia e o Francisco declaram que desce at\u00e9 pr\u00f3ximo dos artelhos. Haver\u00e1 neste ponto confus\u00e3o da parte das crian\u00e7as, sobretudo por parte da mais nova? Se n\u00e3o, este ponto torna-se dif\u00edcil de explicar e resolver.<\/p>\n<blockquote class=\"td_pull_quote td_pull_center\"><p><span style=\"color: #2b499e;\">Ser\u00e3o os acontecimentos de F\u00e1tima obra de Deus? \u00c9 cedo demais para responder com seguran\u00e7a a esta pergunta. A Igreja ainda n\u00e3o interveio, nomeando a respetiva comiss\u00e3o de\u00a0inqu\u00e9rito<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Padre Manuel Nunes Formig\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Nossa Senhora n\u00e3o pode, evidentemente, aparecer sen\u00e3o o mais decente e modestamente vestida. O vestido deveria descer at\u00e9 perto dos p\u00e9s. O contr\u00e1rio, posta de parte a hip\u00f3tese de um engano das crian\u00e7as, ali\u00e1s admiss\u00edvel, porque podiam n\u00e3o ter reparado bem, n\u00e3o ter podido examinar perfeitamente o traje da apari\u00e7\u00e3o, tanto mais que n\u00e3o possuem o dom da infalibilidade, o contr\u00e1rio, digo, constitui a dificuldade mais grave a op\u00f4r \u00e0 sobrenaturalidade da apari\u00e7\u00e3o e faz nascer no esp\u00edrito o receio de que se trata de uma mistifica\u00e7\u00e3o, preparada pelo esp\u00edrito das trevas. Mas como explicar a concorr\u00eancia de tantos milhares de pessoas, a sua f\u00e9 viva e a piedade ardente, a mod\u00e9stia e compostura que mostram em todos os seus atos, o sil\u00eancio e recolhimento da multid\u00e3o, as convers\u00f5es numerosas e retumbantes ocasionadas pelos acontecimentos, o aparecimento de sinais extraordin\u00e1rios no c\u00e9u e na terra, verificados por milhares de testemunhas, como explicar, repito, todos estes factos e concili\u00e1-los com a provid\u00eancia divina e a economia que rege o mundo sobrenatural, sobretudo depois do estabelecimento do cristianismo, se o dem\u00f3nio \u00e9 que \u00e9 a causa ou a ocasi\u00e3o de semelhantes factos?<\/p>\n<p>Resta, pois, uma \u00fanica solu\u00e7\u00e3o. Ser\u00e3o os acontecimentos de F\u00e1tima obra de Deus? \u00c9 cedo demais para responder com seguran\u00e7a a esta pergunta. A Igreja ainda n\u00e3o interveio, nomeando a respetiva comiss\u00e3o de inqu\u00e9rito.<\/p>\n<p>Quando o fizer, a miss\u00e3o desta comiss\u00e3o ser\u00e1 relativamente f\u00e1cil de cumprir<strong>. No pr\u00f3ximo dia 13 de outubro, ou tudo se desfar\u00e1 como por encanto, ou novas provas, inteiramente concludentes, vir\u00e3o confirmar<\/strong>\u00a0as que j\u00e1 existem em favor da realidade das apari\u00e7\u00f5es da Virgem.\u201d<\/p>\n<p><span style=\"color: #999999;\"><em>Autor: Jo\u00e3o Francisco Gomes<\/em><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #999999;\"><em>Fonte: Observador<\/em><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">_<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O interrogat\u00f3rio que o padre Manuel Formig\u00e3o fez aos tr\u00eas pastorinhos. O seu objetivo era saber se os acontecimentos de F\u00e1tima eram obra de Deus. Quando, h\u00e1 100 anos, tr\u00eas crian\u00e7as afirmaram ter visto Nossa Senhora em cima de uma azinheira na\u00a0Cova da Iria, ningu\u00e9m previa que aquele lugar desconhecido junto a F\u00e1tima, em Our\u00e9m, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":4411,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":""},"categories":[678],"tags":[759],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/descobrirportugal.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/capa-26-e1511630944119.jpg?fit=799%2C599&ssl=1","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p9IWTB-198","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/descobrirportugal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4410"}],"collection":[{"href":"https:\/\/descobrirportugal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/descobrirportugal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/descobrirportugal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/descobrirportugal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4410"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/descobrirportugal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4410\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4412,"href":"https:\/\/descobrirportugal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4410\/revisions\/4412"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/descobrirportugal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4411"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/descobrirportugal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4410"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/descobrirportugal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4410"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/descobrirportugal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4410"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}