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A aldeia Fantasma no Gerês

A história da aldeia fantasma que emerge "misteriosamente" do rio. No seu leito repousam mais de 1000 anos de História, à superfície permanecem as memórias.

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Vilarinho da Furna
Vilarinho da Furna

Vilarinho da Furna foi uma aldeia comunitária situada no sopé da Serra Amarela, em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês. Não sei se “foi” é o tempo verbal mais adequado, uma vez que a aldeia ainda existe, embora escondida sob as águas do Rio Homem, que a engoliu em 1971, ao ser construída a barragem de Vilarinho das Furnas.

“No dia seguinte só havia silêncio”

João Rodrigues, antigo morador, aponta entre as árvores para o que resta do casario da antiga povoação. “Era aqui a famosa aldeia de Vilarinho da Furna”. Foi ali que nasceu, há mais de 60 anos, na povoação encravada entre as serras do Gerês e da Amarela. Para trás, na história da aldeia, estão 40 anos de submersão nas águas da barragem que lhe tomou o nome.

Desde 1971 que ninguém aqui mora, depois de preparado o caminho para a subida das água do rio Homem. Mas, em ocasiões como esta, os vilarinhenses aproveitam para regressar às origens.

Especialmente a 8 de Dezembro, dia da padroeira da aldeia, Nossa Senhora da Conceição. Ano após ano, os antigos moradores continuam a aproveitar a data para se encontrarem, lembrando as velhas festas no coração da aldeia. “Íamos de porta em porta chamar os convidados”, lembra João Rodrigues. A ementa era composta habitualmente por cabra com batata e arroz de miúdos. Para a sobremesa ficavam as rabanadas, feitas com pão espanhol, quando a fronteira se atravessava ilegalmente.

Os antigos moradores não perderam o contacto entre si, especialmente desde que, em 1985, criaram a associação A Furna, empenhada na preservação da aldeia comunitária. Hoje, para os que sobreviveram a quatro décadas, as memórias da vida na aldeia confundem-se com as do seu fim.

“Vem aí a presa.” A frase verbalizava o receio de desaparecimento da aldeia nos anos que antecederam o enchimento da albufeira. A “presa” começou a ser uma realidade cada vez mais próxima, até que, em 1971, foi preciso meter toda a aldeia em carrinhas e tirá-la dali. A diáspora de Vilarinho espalhou-se por vários concelhos do Norte e pela emigração, mas alguns moradores ficaram a viver ali perto, na povoação vizinha de S. João do Campo.

“Como fui viver para Campo, vi a barragem encher lentamente. A água não me chegou logo ao pescoço, foi-me afogando lentamente.”

Era lá que vivia José Maria Barreira. Filho de moradores de Vilarinho, lembra-se de ir à aldeia dos pais amiúde. “Tinha lá uma pequena e ia lá muito aos bailes de domingo”, recorda. Acompanhou a mudança dos vizinhos e lembra o primeiro amanhecer da aldeia-fantasma: “No dia seguinte só havia silêncio. Houve uma voz que se apagou.” Vilarinho da Furna estava logo do outro lado do rio. “Tinham rebanhos de cabras, tinham vacas e porcos, mas de repente deixámos de os ouvir. Era como se nos faltasse qualquer coisa”, ilustra José Maria.

As memórias de João Rodrigues são menos dramáticas. Diz ter “amolecido lentamente” a dor da perda das raízes. Explica: “Como fui viver para Campo, vi a barragem encher lentamente. A água não me chegou logo ao pescoço, foi-me afogando lentamente.”

in Publico, 2009

 

Vilarinho da Furna

Vilarinho da Furna em 1968

Vilarinho da Furna era uma pequena aldeia da freguesia de S. João do Campo, situada no estremo nordeste do concelho de Terras de Bouro. Segundo uma tradição oral teria começado a sua existência por ocasião da abertura da celebre estrada da “Geira“, que de Braga se dirigia a Astorga num percurso de 240 Km, e daqui a Roma.

Estaríamos, segundo a opinião mais provável, pelo ano de 75 D.C. Um grupo de sete trabalhadores, assim reza a tradição, resolveu fixar-se junto da atual Portela do Campo. Passado pouco tempo, por motivos de desentendimento, quatro desses homens deixaram os seus colegas e foram instalar-se a poucos metros da margem direita do rio Homem, dando assim inicio à povoação de Vilarinho da Furna.

A Aldeia de Vilarinho da Furna na época em que ainda era habitada

Em suma, tudo o que hoje se pode dizer sobre o nascimento de Vilarinho da Furna se resume num levantar de hipóteses. Todavia, no meio de toda esta incerteza, um facto se apresenta incontestável: se não a sua origem romana, pelo menos a sua romanização, os romanos chegaram, viveram, passaram e deixaram rasto.

Ponte de Vilarinho da Furna

Atestam-no as duas vias calcetadas que davam acesso a povoação pelo lado Sul e, sobretudo, as três pontes de sólida arquitetura. Como a maior parte das aldeias serranas do Norte de Portugal, Vilarinho da Furna era constituída por um aglomerado de casas graníticas, alinhadas umas pelas outras, formando ruelas sinuosas.

Aldeia de Vilarinho da Furna

As casas de habitação compunham-se geralmente de dois pisos sobrepostos e independentes: uma loja térrea, destinada ao gado e guarda de alfaias e produtos agrícolas; e um primeiro andar para habitação propriamente dita, onde ficavam a cozinha e os quartos. O mobiliário era simples e modesto. Alguns objetos como louças, candeias, talheres, lanternas, etc., eram comprados nas feiras ou a vendedores ambulantes que passavam pela povoação mais ou menos regularmente.

Forno em Vilarinho da Furna

Outros eram de fabrico caseiro como as arcas, camas de madeira, raramente ornamentadas com motivos religiosos, as mesas e os bancos, além da quase totalidade dos artigos de vestuário. A iluminação noturna era feita com uma variedade de candeias e candeeiros de recipiente fechado, que funcionavam a petróleo, com gordura animal ou azeite, quando aquele escasseava por alturas da guerra.

© Joca – asnotasparaomeudiario.blogspot

Todos os habitantes de Vilarinho da Furna, aí residentes, praticavam a religião católica, sendo motivo de forte critica por parte dos outros o eventual não comprimento dos deveres religiosos.

O povo de Vilarinho, além do acatamento das leis vigentes do seu País, tinha também as suas leis internas que eram respeitadas e escrupulosamente cumpridas. Para isso havia uma junta que era composta por um Zelador (antigamente Juiz) acompanhado por seis membros.

© Joca – asnotasparaomeudiario.blogspot

Para esta assembleia dos seis podiam ser eleitos os chefes de família, tanto homens como mulheres, estas nessa qualidade, quando em estado de viuvez ou ausência do marido, devido à emigração. O sexo feminino podia eleger e assistir às reuniões da Junta, porém, nunca podia ser escolhido para o alto cargo de Zelador, pois a nomeação deste era feita de entre os homens casados, por ordem cronológica do consórcio. As eleições para a escolha dos Seis e substituição do Zelador eram realizadas de seis em seis meses.

Os Seis que cessavam as funções, transmitiriam aos sucessores, na presença do novo Zelador e do Zelador cessante, os assuntos pendentes e o dinheiro em cofre. Em tempos, o Zelador antes do início da reunião, jurava sobre os Santos Evengelhos e, no ato da sua posse, empunhava a vara das cinco chagas, jurando assim obediência a todos os vizinhos.

O Zelador toca o corno convocando para a reunião do conselho, em Vilarinho da Furna.

A Junta reunia normalmente todas as quintas-feiras. Para isso o Zelador, ao raiar da aurora, tocava uma buzina (búzio) ou um corno de boi, chamando os componentes da Junta. Ao findar o terceiro toque, espaçadamente, dirigia-se para o largo de Vilarinho, levando uma caixa onde se encontravam as folhas da lei.

© Joca – asnotasparaomeudiario.blogspot

Seguidamente, o Zelador procedia à chamada, aplicando aos faltosos uma “condena” de 50 centavos, a não ser que uma pessoa de família comparecesse justificando o motivo da ausência. Porém, aqueles que faltassem todo o dia sem apresentar qualquer justificação, eram condenados a pagar 5$00. A reunião da parte da tarde não se realizava no largo da aldeia, mas sim junto aos campos, na ponte romana sobre o rio Homem.

© Joca – asnotasparaomeudiario.blogspot

Era nestas assembleias que se determinava os trabalhos a realizar e as “condenas” a aplicar. Depois de todos terem discutido os vários assuntos respeitantes à vida da aldeia, os seis reuniam-se para deliberarem, vencendo sempre a maioria e tendo o Zelador voto de qualidade.

© Manuel Magalhães

Os assuntos principais incidiam sobre a construção e reparação dos caminhos, muros e pontes de serventia comum, a organização pastoril (vezeiras e feirio), organização dos trabalhos agrícolas (malhadas, desfolhadas, vindimas, roçadas, etc.) e ainda, a distribuição das águas das regas, etc.

Vilarinho da Furna ruínas

As atribuições do Zelador eram tais, que poderia, em caso muito grave, expulsar o vizinho, isto é, marginalizá-lo totalmente da vida social e do sistema comunitário. Ele era também o Juiz de todos os crimes, com exceção para o homicídio por ser da competência dos tribunais.

Vilarinho da Furna ruínas

Havia um puro sentimento de solidariedade que envolvia este povo e a sua força de unidade traduzia-se no lema de todos por todos. Muito haveria a dizer do regime comunitário de Vilarinho, um povo que deixou a todos nós, uma história e um exemplo.

Vilarinho da Furna ruínas

O espectro da barragem começou a pairar sobre a população como um abutre esfaimado. A companhia construtora da barragem chegou, montou os seus arraiais e meteu mãos a obra.

Vilarinho da Furna ruínas

Esta surge progressiva e implacável. O êxodo do povo de Vilarinho pode localizar-se entre Setembro de 1969 e Outubro 1970, quando na aldeia foram afixados os editais a marcar o tapamento da barragem. De um ano dispuseram os habitantes de Vilarinho para fazer os seus planos, procurar novas terras e proceder a transferência dos seus móveis.

Vilarinho da Furna ruínas

As 57 famílias que habitavam esta povoação, estão agora dispersos pelas mais variadas terras dos concelhos de Braga. Da vida e recantos da aldeia comunitária não resta mais que um sonho. Sonho que é continuado no Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna, construído com as próprias pedras da aldeia. A barragem de Vilarinho da Furna foi inaugurada em 21 de Maio de 1972.

Barragem de Vilarinho da Furna

Depoimento de António Campos e excerto do filme Vilarinho das Furnas, de António Campos, 1971.

Fonte: Monumentos Desaparecidos

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