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Portel: As traseiras do sapateiro

As traseiras do sapateiro de Portel contadas pelas palavras do Nuno Rebocho e pelas fotografias do Antunes Amor. Dois camaradas jornalistas que a morte levou com um mês de intervalo. E uma crónica que você merece ler. Deliciosa!

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Sapateiro Portel 01

Nas traseiras do sapateiro mora o tempo antigo. O sapateiro sobrevive: lojeca de pequena coisa, espaço diminuto. Espreito o interior. O lusco-fusco já adormece Portel, a noite avança tímida, pé ante pé.

A porta está aberta, ninguém lá dentro. “O que é?”, pergunta-me Ana Rojas atrás de mim. “Uma raridade”, respondo, “um sapateiro”. Um sapateiro de remendar solas ou de botar solas novas, de sovela e cabedais, de fazer sapatos e botas à medida. Na vila de Portel ainda existe. Fronteiro ao largo onde a Câmara se planta.

A curiosidade empurra-me para dentro da botica. Ana acompanha-me. Contemplo as formas. Atento nas prateleiras. Nisto, ele – o sapateiro – está ao meu lado. De onde surgiu? Neste espaço de sombras, apareceu como se revelam os feiticeiros: assim, num piscar de olhos, num estalar de dedos. E tem voz: “Querem alguma coisa?”. “Queremos ver”. “Vejam”. Deixou-nos a mirar. Meto conversa: é sapateiro desde a meninice, lições aprendidas do pai, ofício arrastado de há mais de 40 anos. As rugas do rosto e os calos das mãos são-lhe a farda. O apelido disse-me. Para mim é O sapateiro, que hoje são tão raros que qualquer um é O.

Sapateiro Portel 02

Que encomendas são poucas: agora compra-se para bater e deitar fora. Mas ainda há quem mande fazer umas botas. Quem queira remendar a sola rota, ou meter biqueiras. O que já não existem são aprendizes, quem almeje ser continuador. “Vai dando, não muito mas vai dando…”, explica-me para justificar a teimosia de permanecer no seu posto, de não se deixar baldar pelo tempo e pelas modas do tempo.

Sapateiro Portel 03

Engraçou connosco. “Não bebem nada?” Como recusar? Abre a porta para desvendar outra sala, sala traseira, mais ampla esta, iluminada a lâmpadas temerosas de despir penumbras. Uma mesa grande, dois amigos sentados degustam chouriço assado e beberricam. Garrafa com tinto à disposição. Nas prateleiras um “utensílio” das Caldas. Na parede, afixada ementa de fazer corar os menos atrevidos e sem necessidade de malagueta. “Leiam, leiam”. Leio e rio-me. Ana quer ler: não lhe tapo os olhos que a nossa idade dispensa pudores. Afinal, aprendemos a ler nas escola e foi também para estas coisas que nos ensinaram.

Riem-se eles. Rimo-nos todos. Aventuramo-nos no chouriço e atrevemo-nos no tinto antes das despedidas.
As traseiras d’O sapateiro servem para acolher os amigos. Quando voltar a Portel, bato-lhe à porta: para comprovar resistências.

Nuno_Rebocho

Crónica assinada pelo Nuno Rebocho, fotografias do Antunes Amor. Coincidências da vida… despediram-se de nós com menos de um mês de intervalo: Em Dezembro de 2019 e Janeiro de 2020.
Palavras e imagens que contam um “Passeio de Jornalistas” a terras de Portel. Daqueles que eu organizava país todo. E onde tive a dita de os ter como participantes.
Ficam aqui como reconhecimento e homenagem.
Rui Dias José

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